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estado de coisas
state of affairs

As you are falling (...) new types of visuality arise.
                                                     HITO STEYERL








     













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Encontraria o horizonte? Quando muitas coincidências se apresentam, parecem sugerir um presságio. Indício de caminho certo, pois, talvez, por acidente, este arranjo cause determinada satisfação; ou por simples impressão... Dançam os sinais que iluminam a paisagem em síncronos gestos, como que por fluxo do universo, e uma frágil relação se institui, tão fugaz e, por isso, tão potente. Um axioma a ser testado. Uma dimensão própria. É o que toda paisagem produz.










                                            











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E de repente é tangida uma breve sinfonia. Ruído acusmático provocado pelo encontro do aqui e agora. Neste delicado instante, construído na medida de sua máxima entropia, em que, de uma vez, as coisas acontecem. De resto, o silêncio da expectativa.


           












                    











                


2
Justamente no campo de visão se anunciam os acontecimentos. Ainda que a paisagem se estenda indefinidamente, e guarde minúcias ocultas à vista. Ainda agora contemplávamos sua amplidão, esperando algumas circunstâncias se revelarem de seus recantos. Mas é preciso encarar as longas distâncias dos percursos que vão se formando paisagem adentro, rodeando os elementos de cena, enquanto se perde o ponto de partida. Perdidos, mas não necessariamente distantes, flagramos os latentes eventos.





1
Tomemos este instante para observação dos vários futuros (não todos) que se avistam desta conjetura. Não como exercício de apreensão, que se faria em vão, pela impossibilidade de constituir dados concretos desta paisagem sem coordenadas. Todas as determinações aqui arranjadas são referências únicas de um estado de coisas. Provisório, como uma constelação. Dessas que projetam cenários e orientam navegantes — e se dissipam no piscar de olhos. É mais necessário um olhar errante que atento, capaz de se distrair com a própria aventura antes de tropeçar nos limites da paisagem, que beiram um pequeno momento.



BICA +
GUAVA



curador
Thiago Granai

28 de abril a
31 de agosto de 2022


estado de coisas
state of affairs



artistas
Auguste Montini
bellavirus
Cryptonudes
Edu Moreira
Estelle Flores
Gabriela Maciel
Gean Guilherme
Jéssica Luz
KOSHA
Lídice
Marcelo Pinel
Mariana Destro
Patrícia Abbott
Sandro Miccoli
Taís Koshino
Terra Assunção


Os trabalhos aqui reunidos provocam os valores atribuídos à paisagem como gênero estabelecido na arte ocidental, consolidado, principalmente, na pintura e associado ao colonialismo, como forma de registro moderno do mundo. Através de novas mídias, os artistas participantes desta exposição — e é preciso dizer, brasileiros, reforçando, ainda, a posição no Sul Global — propõem concepções diversas acerca da relação do espaço com a subjetividade e, necessariamente, distanciam-se do conceito de paisagem instituído na modernidade, em suas criações. Por se tratarem, todos, de NFTs, estes trabalhos lidam, em uma visão otimista, com uma lógica de mercado independente e um campo de negociações descentralizado, longe não só da tradição pictórica, mas de outras práticas tradicionais do mundo da arte. Relacionam-se, assim, com uma paisagem descentralizada emergente que passamos a conhecer como Web 3.0 [1], uma nova geração da internet com novas tecnologias para navegação, em que se destaca esta que possibilita a criação dos NFTs, a blockchain.

É significativo ter surgido no Brasil uma das principais plataformas de negociação de NFTs de arte do mundo, o Hic et Nunc. Inaugurado em março de 2021, aquecendo a febre global de criptoarte que se iniciou no mesmo ano, ele atingiu em poucos meses sua relevância, antes de sua repentina desativação [2]. Seguiu-se, em certa escala, uma dispersão da comunidade do H=N (Hic et Nunc) entre sites espelhos do mesmo, gerados a partir de seu código aberto, assim como entre outras plataformas, criando novas perspectivas de descentralização no(s) circuito(s) de criptoarte. Se por um lado é a própria urgência do mercado que incita as reorganizações quase instantâneas da comunidade ante a velocidade pela qual surgem eventos impactantes para a cena NFT; por outro, é possível notar, nesses movimentos, preocupações geopolíticas. Entre as polêmicas questões econômicas, políticas e ambientais que atravessam a cena, a expressão do Sul Global na comunidade não deixa de avaliar relações de poder presentes na lógica liberal deste mercado. O desenvolvimento da Teia [3], por exemplo, plataforma criada pela própria comunidade do H=N depois de sua descontinuidade, se ateve a votações entre os membros/usuários sobre decisões diversas para sua construção, procurando preservar os ideais políticos que o H=N representava [4][5] e formar uma gestão (mais) descentralizada. A votação que definiu seu título resultou neste nome em português, relembrando as raízes brasileiras das duas plataformas.

Há aqui uma compreensão, como hipótese, de que se encerrou um primeiro momento deste boom [6] de NFTs com a descontinuidade (já revogada) do Hic et Nunc. Não estabelecemos, no entanto, relações causais entre os dois eventos. É a partir de impressões declaradamente fugazes que esta exposição põe tais circunstâncias em perspectiva, por relações síncronas, guiadas por um mote poético aspirado a embargar este momento. Visto que os artistas integrantes foram encontrados pela comunidade do H=N, é inevitável que se apresente um registro do que foi criado como comunidade. Conjugamos, então, com esta produção, um olhar para um momento findado a fim de tornar possível especular o futuro. Como forma de abertura visual para especulações sobre o futuro da arte digital e da internet, articulam-se, aqui, paisagens diversas. Uma delas, a própria exposição, configurada como uma paisagem de hiperlinks, em que cada trabalho é um atalho para o respectivo marketplace onde é negociado, retomando o sistema de navegação da primeira geração da internet (Web1) e o pleno potencial de uma tecnologia inédita.

Paisagem, em uma definição expandida, como mero recorte do tempo e do espaço, à medida que o conceito se desdobra infinitamente através das criações digitais. Fotografias digitais, screenshots, criações e animações 3D, imagens geradas por inteligência artificial e imagens geradas dentro de simulações virtuais e de jogos eletrônicos são alguns exemplos apresentados nesta seleção. A diversidade de linguagens dos trabalhos revela não só uma profusão de formas de olhar e se relacionar com o espaço, seja físico ou virtual, como um contraste com o relacionamento com ele constituído na modernidade. Não há a intenção de domínio ou de captura de um ambiente considerado disponível que atravesse a criação dos trabalhos. Não há, aqui, os conceitos e elementos conhecidos disponíveis para tal captura: horizonte, solo ou coordenadas. Nesta página, em que todos estes elementos estão retidos, confundem-se os sentidos para navegação, pois enquanto se desce, sobe, conforme indica a ordem do texto que, entre os trabalhos da exposição, nos acompanha.